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segunda-feira, 12 de abril de 2010

COMO VEJO O MUNDO - ALBERT EINSTEIN

COMO VEJO O MUNDO
Albert Einstein 

"Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e
ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência
cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens,
porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda
para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas.
E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida - corpo e alma - integralmente 
tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar
tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o
sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao
exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas
classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho
ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e
de espírito.
Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre,
e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por
convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de
Schopenhauer: "O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer
o que quer"; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas,
esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz
sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não
me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo
então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a
finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista
estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais
dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o
prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos
indivíduos reduzidos a instintos de grupo.
Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram
viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras
sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em
perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida
perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades
irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as
desprezava.
Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita
dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a
falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao
Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do
termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento
de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa
distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação
e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da
ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais
firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o
homem. É inconsistente.
A virtude republicana corresponde a meu ideal político. Cada vida encarna a
dignidade da pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação
qualquer de quem quer que seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens
me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e
não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu
sentimento. Querem compreender as poucas idéias que descobri. Mas a elas
consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto.
Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepção, de direção e de
responsabilidade. Reconheço esta evidência. Os cidadãos executantes, porém,
não deverão nunca ser obrigados e poderão escolher sempre seu chefe.
Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se
instala e o ideal republicano degenera. A violência fascina os seres
moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será
sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e
apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista
de hoje e contra a Rússia soviética de hoje. A atual democracia na Europa
naufraga e culpamos por esse naufrágio o desaparecimento da ideologia
republicana. Aí vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de governo
não encarnam a estabilidade e o modo da votação se revela impessoal. Ora,
creio que os Estados Unidos da América encontraram a solução desse problema.
Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa
efetivamente e afirma de verdade seu compromisso. Em compensação, o sistema
político europeu se preocupa mais com o cidadão, com o enfermo e o
indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado não se impõe como o
mais indispensável. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que
modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam
arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.
A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um
homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu
desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula
espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível
este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo
obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa
mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar
desta ignomínia.
No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há
muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é
sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos
negócios, mundo político.
O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita
a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta
sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um
morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade
secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então
algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações
desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e
seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta
confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa
profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a
recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de
um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um
espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta.
Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma
intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para
compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na
vida.

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